Tuesday, October 25, 2005

Telepizza: recuperar o tempo perdido...

A mente digital caracteriza-se pelo domínio aprofundado das novas tecnologias da informação e da comunicação, numa constante procura de conhecimento sustentado pela velocidade e instantaneidade.
Veja-se a necessidade desta rapidez no simples gesto da encomenda da pizza. Quer se chegue tarde do trabalho, um serão de trabalho com os colegas ou um simples derby na televisão, a pizza entrou nas nossas vidas tão depressa e já faz parte da essência da rentabilização máxima do tempo.
Existe todo um ritual à volta da “encomenda da pizza”. Um autêntico cerimonial: reunir a família/amigos/colegas, ver as promoções, chegar a um consenso sobre os ingredientes e eleger o “mestre-de-cerimónias” que vai fazer o telefonema.
Terminada a chamada e a ligação com o universo do extra queijo e das anchovas segue-se, então, a dimensão do tempo de espera: os 30 minutos. A espera que nos separa do pizza transforma-se em tempo indispensável para a organização das nossas vidas. Já não concebemos o mundo sem estes minutos para fazer outra coisa qualquer desde que não seja o jantar. Este tempo passa a ser só nosso. Durante aquele curto espaço temporal não existem preocupações com o quotidiano mundano das nossas vidas, ultrapassamos a fronteira das necessidades biológicas para outra dimensão. Até ao toque da campainha tomamos nas mãos as rédeas da nossa existência.
Para quem vive no auge da velocidade de pensamento e de acção isto pode parecer um contra senso. A instantaneidade perdeu o seu valor. Quando a chamada é feita, temos a esperança que, à chegada da massa fermentada, tudo está resolvido. Esta é a facilidade da pizza em 30 minutos: a de resolver todos os nossos problemas ou a esperança que resolva. É a ilusão da vida moderna, fugaz e cheia de lamentações. A de que o tempo pode ser estendido conforme o nosso desejo.
Numa sociedade cada vez mais global em que as fibras ópticas suplantam as alimentares, a velocidade marca o passo. Tudo gira à volta da rapidez de execução: o jantar, o trabalho, a construção do conhecimento, etc.
Ao final do dia e esgotadas as 24 horas já pouco ou nada se pode fazer. Já não há pizza que prolongue o dia. Os 30 minutos terminaram e o que está à nossa frente é uma caixa de cartão vazia com migalhas do que outrora fomos ou poderíamos ter sido.
Vivemos cada vez mais intensa e rapidamente as nossas vidas esquecendo-nos que temos um prazo de validade.
Tal como a pizza que, fria, não tem o ar apetitoso do dia anterior.

1 Comments:

At 4:48 AM, Blogger Rui Marques said...

Caro Alexandre
Belíssimo texto!
Boa entrada pela “porta” do tempo e da sua expansão que a RD impulsiona mas que não responde plenamente. É também interessante – e original - que tenha trazido a dimensão ritual da reunião de família para a escolha da pizza. Mas o que é marcante é o fecho que o Alexandre consegue. Do melhor que tenho lido. Acho que tem um dom para explorar...

 

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